Alexandre Wagner

O SOL DA NOITE

Existe no trabalho de Alexandre Wagner um som que é quase um rumor. Suas pinturas são permeadas por esse vento sutil que ergue de leve os tecidos das bandeiras, que inclina estacas e mastros, que faz as águas e as copas das árvores tremularem devagar. 


Suas paisagens têm uma luz baixa que remete a uma outra época – passada ou futura, não se sabe – ou talvez sejam uma outra dimensão desses mesmos espaços, como se as pinturas fossem a lembrança desses lugares ou sonhos ainda inabitados. Algumas delas se parecem com a superfície lunar ou de outro planeta. Opacas, há nelas um peso que se repete, uma vagarosidade própria, uma outra gravidade.


Nesta série de trabalhos, Alexandre evidencia a noite solitária em paisagens que remetem a desertos e lugares abandonados onde não há presença humana, mas seus indícios escassos e já deteriorados: uma barraca, um mastro, uma bandeira, uma casa velha, um pneu. Esses artefatos, únicos habitantes desses espaços, parecem sobreviver conservados em um tempo estendido, como num sonho lento onde um par de árvores também pode ser um fantasma.


No caso das paisagens que poderiam ser diurnas, a luminosidade parece a do momento em que o dia ainda não nasceu, de quando o céu já está clareando,

quando ainda não há raios de sol. É como se as pinturas buscassem o limite da noite, como se a esticassem pra ver até onde continuam sendo noite: amarelas, brancas, esverdeadas. Nas pinturas de Alexandre não há sol a pino, evidente. E quando aparece no céu, ele se confunde com a lua. Se no poema de Drummond os objetos se convertem em noite, nas pinturas de Alexandre Wagner a noite se

desdobra em camadas, profundidades e, eventualmente, se converte em dia.


Ana Estaregui