José Bechara

Entre Tempos

POR JACOPO CRIVELLI VISCONTI

2011

Entre Tempos

A presença quase constante de uma matriz geométrica extremamente precisa poderia induzir o observador a acreditar que as pinturas de José Bechara aqui reunidas busquem, antes de mais nada, um diálogo com a história da arte, e talvez, mais especificamente, com a tradição concreta, fundamental para o desenvolvimento da arte brasileira das últimas décadas. Mas a questão principal, nessas pinturas e talvez até no conjunto da obra de José Bechara, é outra: é o tempo. O tom esverdeado obtido com as oxidações de aço e emulsão de cobre, por exemplo, é parecido, tanto do ponto de vista cromático quanto do químico, ao que os telhados das catedrais europeias atingiram em séculos de exposição à intempérie, mas o artista conseguiu acelerar o processo para que demorasse “apenas” algumas semanas.

Algumas semanas: o tempo das catedrais e o do ateliê são distintos, o que lá fora é piscada de vagalume, parcela insignificante da eternidade espiritual e temporal, aqui dentro representa, e impõe, um hiato no vórtice, uma cunha de imobilidade na urgência da cotidianidade: no ateliê em Santa Teresa, uma ou outra tela está sempre deitada, descansando, mudando lentamente de cor, nela não se pode mexer, é preciso, apenas, aguardar. As pinturas acontecem entre esses dois tempos, aquele que foi acelerado, comprimido para caber na vida, e o que se dilata quanto mais puder, para que a vida tome conta do quadro.

E é por isso que o artista pode falar, ao descrever a malha que subjaz à maioria das suas pinturas, e que começa rigorosa só para perder, aos poucos e conscientemente, esse rigor, de uma “geometria hesitante”: uma geometria, isto é, que pertence ao mundo, e não ao universo abstrato dos manuais, ao empíreo inacessível da teoria. As pinturas de José Bechara, exatamente como as catedrais, estão bem apoiadas no mundo, e a maneira como ambas revelam a solidez das suas fundações é deixando que o mundo, aos poucos, se aproprie delas, mude sua cor, e rabisque umas manchas de tempo sobre elas.

Jacopo Crivelli Visconti

Setembro 2011