Ficaremos bem (?)

Curadoria Fernando Mota e Mariana Lorenzi

13.09.2019 - 12.10.2019
Sala 2 / Rua Jeronimo da Veiga, 62 - Itaim Bibi

Abertura: 

12 de Setembro, quinta, 19h-22h


Período expositivo: 

de 13 de Setembro até 12 de Outubro de 2019


Horário de funcionamento: 

terça a sexta-feira, das 12h às 19h / sábado, das 12h às 17h

FICAREMOS BEM (?)

Curadoria Fernando Mota e Mariana Lorenzi


A Galeria Marilia Razuk apresenta a exposição Ficaremos bem(?), com curadoria de Fernando Mota e Mariana Lorenzi. A mostra conta com trabalhos dos artistas Bel Falleiros, Laura Gorski, Maria Laet, Vanderlei Lopes, Verena Smit e WMT - Wagner Malta Tavares. 


Diante de uma era repleta de tensões políticas, esgotamento ambiental e intenso compartilhamento de informações, a pergunta/afirmação do título da exposição – que toma de empréstimo o nome do trabalho em neon da artista Verena Smit –, aponta um caminho de fragilidades e incertezas. Os trabalhos apresentados se reúnem em torno da questão de como o indivíduo se coloca no mundo contemporâneo, em especial como tece suas relações de afeto com os outros, com o entorno, com a memória e consigo mesmo. São obras em diversos formatos e mídias que vão desde o desenho ao vídeo, passando pela escultura e fotografia que, dialogando entre si, proporcionam de forma poética um momento de reflexão.


A mostra será realizada na sala 2 da Galeria Marilia Razuk, um espaço dedicado a exposições temporárias, site specifics e projetos com formatos diferentes.


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TEXTO CURATORIAL

FICAREMOS BEM(?)


uma exposição de Fernando Mota e Mariana Lorenzi, na Galeria Marilia Razuk

com Bel Falleiros, Laura Gorski, Maria Laet, Vanderlei Lopes, Verena Smit e Wagner Malta Tavares

 

Diante de uma era repleta de tensões políticas e sociais, esgotamento ambiental e intenso compartilhamento de informação, o trabalho em neon Ficaremos bem(?), da artista Verena Smit, instalado do lado de fora da galeria, abre a exposição com uma frase ora animadora ora inquietante. Se em um momento afirma que “ficaremos bem” (apesar de tudo), logo no segundo seguinte, ao surgir um ponto de interrogação, a frase se abre para as incertezas que o futuro nos reserva, seja no âmbito pessoal ou coletivo. Essa pergunta/afirmação, que é também o título da mostra, conduz o visitante pelas obras que se espalham no espaço expositivo. Os trabalhos dos seis artistas que fazem parte da exposição, se reúnem em torno da forma como o indivíduo se coloca no mundo contemporâneo, em especial como tece suas relações de afeto com os outros, com o entorno, e consigo mesmo. Além disso, a exposição busca instigar uma reflexão acerca daquilo que nos constitui como humanos: a linguagem, o corpo, a memória, a instabilidade, e até mesmo a ausência.


Ainda no exterior da galeria, vislumbramos a Nave. A escultura do artista Wagner Malta Tavares, híbrido de cadeira e embarcação à vela, causa uma estranheza. Enquanto a suntuosa vela prateada sugere a iminência de movimento, prometendo zarpar a qualquer momento, a rígida cadeira de madeira que sustenta o mastro quebra qualquer expectativa de ação. Porém, se aquela curiosa embarcação não pode nos levar a lugar algum, ela abre para possibilidades simbólicas e até impossíveis de deslocamentos. E é ao adentrar o espaço expositivo que nos deparamos mais uma vez com a Nave, agora retratada em duas fotografias que foram feitas num dia nublado em alguma praia do litoral paulista. A vela inflada pelo vento é contida por aquela cadeira banal, o objeto colocado na paisagem – bem próximo ao mar –, parece ainda mais desprovido de função: se como embarcação nunca poderá navegar por aquelas águas,a ausência de um corpo também o inutiliza como cadeira. Se a Nave nos conta sobre coisas que estão no mundo – vento, mar, matéria –, a Sonda aponta para o espaço. A instalação sonora de WMT, uma máquina analógica de aspecto futurístico, é composta por uma estrutura de alumínio com um toca-discos acoplado de um lado e uma caixa de som do outro. A “engenhoca” emite sons e ruídos interplanetários, barulhos que teriam vindo do fundo da galáxia, de planetas do sistema solar, dos anéis de Saturno, ou até mesmo das luas de Júpiter; uma trilha sonora que se expande e preenche o espaço da galeria, permeando as outras obras.


Desbravamos o Universo, porém o quanto conhecemos a nós mesmos? Nas duas fotografias de Maria Laet presentes na exposição, é possível observar a sutileza e a poética do trabalho da artista ao tratar de temas essenciais ao indivíduo contemporâneo, como tempo, espaço e o intervalo entre e em cada um deles. Os trabalhos apresentados derivam de dois pontos opostos: em um deles vemos de relance uma fração de um ato contínuo,enquanto que no outro presenciamos um instante de pausa. Não se trata aqui de ação e reação, e sim de ação e inação.

Na obra Terra (Parque Lage) vemos uma das mãos da artista em atividade, estamos acompanhando um dos gestos mais antigos da humanidade: costurar. Laet costura com uma linha branca o espaço de terra entre duas árvores, vai e volta, aos poucos formando uma marcação, como se estivesse unindo os troncos pela superfície através de um remendo, deixando um rastro da operação. Essa singela intervenção aborda uma série de questões reflexivas, da forma como nos relacionamos com o meio ambiente, aos meios que encontramos para preencher nossos vazios. Em contrapartida, a segunda foto parte do princípio de um momento estático: em um local simples que aparenta ser um parque, vislumbramos uma gangorra em perfeito equilíbrio, com a artista sentada de um lado e uma pedra posicionada do outro, ambas suspensas no ar. É uma pré-condição para esse cenário que não haja nenhuma ação por parte do corpo, o que remete a outra tradição milenar: no taoismo, o wu wei é o conceito que propõe a não-ação como uma prática fundamental para uma vida mais sábia e plena, é preciso parar, contemplar e confiar no fluxo natural das coisas. Nos dois trabalhos sentimos o peso do silêncio, ponderamos sobre as pequenas decisões, dividimos a solidão. Laet nos convida a observar os detalhes num mundo incessante, insaciável, insustentável. Quando devemos agir e quando é tempo de esperar?


Laura Gorski apresenta trabalhos que são fruto de uma pesquisa sucessiva nos últimos anos, da qual faz parte um período de residências artísticas realizadas em 2017 na Amazônia, em 2018 na Serra da Mantiqueira e em 2019 no México. Esses deslocamentos recentes da artista aparecem traduzidos em sua obra na investigação das constantes itinerâncias geográficas e de seus relativos impactos no mundo globalizado. A partir de um conjunto de trinta desenhos feitos com uma mistura de nanquim dourado, pigmentos de terra e folhas secas sobre papéis, Gorski desenvolve uma obra que transita entre o mundano e o espiritual, o corpóreo e o imaterial. A terra é usada para desenhar corpos em múltiplas posições, de onde brotam as folhas, como se do homem tudo pudesse germinar (como o próprio título anuncia, Nascer de si). As folhas são provenientes de diversos lugares por onde a artista passou, da cidade grande, da praia, do campo, são resquícios de uma jornada individual, porém elementos familiares a qualquer um de nós. Essa é uma das características que proporciona uma aproximação e eventualmente uma identificação entre público e artista, a obra serve como uma ponte nesse sentido, acolhe nossas próprias lembranças e projeta um sentimento nostálgico universal. Nesse momento, o corpo que dança no papel não é apenas um, é cada um de nós nos movimentando no espaço. Ali estão nossos potenciais, nossas fraquezas e nossos sonhos como seres humanos.


Se por um lado nos sentimos pertencentes a uma sociedade em construção, por outro estamos à deriva em nossos pequenos universos, cada qual em seu próprio território. Outro trabalho de Gorski complementa essa sensação ambivalente: numa folha de papel, quadrados dourados preenchem os espaços vazios deixados entre metades de folhas desidratadas, posicionadas verticalmente em ordem crescente na superfície. A imagem se assemelha a uma coluna vertebral, essencial ao sustento do corpo. Enquanto as folhas foram recolhidas no trajeto diário da artista, entre o ir e vir da casa ao ateliê, os quadrados dourados evocam uma lacuna que transcende o lado físico dessa caminhada, são relativos a um plano etéreo. O ato de caminhar, como forma de criar relações com a paisagem e com os ambientes por onde passamos, não deixa de ser também um ato de auto descoberta – caminhar para dentro de si, para enfim, poder alcançar o outro.


É através do exercício de perambular pelo mundo que a artista Bel Falleiros busca uma relação do corpo com a terra, com identidades esquecidas e paisagens escondidas. Olho da Terra, título da vídeo-performance apresentada, refere-se ao local onde São Paulo foi fundada, a colina Inhapuambuçu (termo em Tupi-Guarani, cujo um dos possíveis significados é “olho da terra”), e questiona sobre como o crescimento da cidade está diretamente ligado ao apagamento simbólico e físico do nosso passado e ancestralidade. Em um exercício quase arqueológico, a artista deslocou para o seu ateliê inúmeras sacolas de terra que coletou por suas andanças pela capital paulista. Em seguida, Falleiros criou uma pequena colina simbolizando o ponto de origem da cidade, a qual costuma denominar como “umbigo da terra”. Desta ação resultou a vídeo-performance na qual o corpo da artista vai gradualmente se fundindo com a terra coletada, numa espécie de retorno ao “útero da urbe” a artista encontra enfim a possibilidade de se reconectar com aquilo que está ausente ou oculto, conferindo à ação um novo senso de pertencimento e identidade. Falleiros também apresenta uma série de seis desenhos em acrílica sobre papel que representam formações geográficas de colinas, são formas circulares que remetem a espaços cerimoniais de antigas civilizações indígenas, utilizados desde a época pré-colonial. Intitulada To share discovered truths [para compartilhar verdades descobertas], as ilustrações são acompanhadas por frases que trazem inquietações e dúvidas sobre como as narrativas são construídas.


Com dois trabalhos que misturam diferentes técnicas e linguagens, numa espécie de fusão entre escultura, pintura, desenho e poesia, Vanderlei Lopes questiona a nossa relação com as informações no cotidiano e as várias leituras do tempo cronológico na era digital. Um dos trabalhos alude a um recorte de jornal fixado em uma parede, como se fosse um lembrete, enquanto o outro aparenta ser um jornal comum largado no chão – teria sido deixado de lado ou ainda não fora recolhido? Fica mais uma incerteza. Além de à primeira vista nos iludirem esteticamente (ambos são precisamente elaborados com guache sobre bronze), as obras insinuam também um descompasso entre o ritmo frenético da vida nos tempos modernos em relação ao tempo efetivo das coisas na natureza, tais como o buraco-negro e a via láctea reproduzidos nos “jornais”. As imagens são baseadas em fotos que circularam na imprensa e as frases são criadas ou apropriadas de outros autores, são “colagens” como o próprio artista diz, o que levanta a discussão de várias problemáticas do fluxo de informações atualmente: desde origem e autenticidade das notícias, passando por manipulação e responsabilidade sobre conteúdo compartilhado, até a crise institucional da imprensa no século 21.


O jornal é uma forma de fixação do tempo, um símbolo do dia-a-dia que se torna obsoleto já na hora em que é impresso; o bronze, nesse contexto, é um elemento transformador: apesar da fragilidade e efemeridade do papel, no trabalho de Lopes acontece uma alquimia metafísica – o jornal se torna perpétuo, vai de arquivo a monumento, o registro de um instante transformado em testemunho de uma época, o que faz do enunciado da notícia a pele de um corpo muito mais denso. No que tange à relação imagem/texto das obras, de um lado temos uma referência ao delicado momento político-econômico-social em que vivemos, tanto numa escala local quanto internacional, como um imponente e opressivo buraco negro sem limites geográficos; em paralelo, há uma contraposição entre a insignificância de cada um de nós perante o Universo, o micro e o macro, com uma sutil mensagem nas entrelinhas: tudo começa no vazio.


Numa tentativa de estabelecer uma comunicação com os transeuntes da cidade, o segundo neon da artista Verena Smit foi instalado na janela vertical da galeria, que está voltada para uma importante via da metrópole – ao se virar para a rua e não para o espaço expositivo, a obra amplia o alcance da mensagem. A pesquisa de Smit gira em torno da linguagem, propondo uma ressignificação de palavras, num jogo que desafia a compreensão e a percepção do observador. A frase “Ainda dá tempo (?)” utiliza o mesmo artifício de afirmação e questionamento presente no neon do lado externo da galeria, porém dessa vez a interrogação pisca num ritmo mais acelerado, provocando uma sensação de urgência. Ainda dá tempo? Tempo de quê? Se para o visitante pode ser clara a relação com o contexto da exposição, para quem observa de fora a sentença pode remeter às suas angústias cotidianas. De qualquer forma, a obra coloca uma dúvida sobre o que ainda é possível fazer, se ainda há tempo de mudar certos rumos para que possamos como indivíduos, e como sociedade, seguir em frente. 


Ficaremos bem? 


Fernando Mota e Mariana Lorenzi