Maria Laet

Poro

27.08.2018 - 20.10.2018
Sala 1 / Rua Jerônimo da Veiga, 131 Itaim Bibi, São Paulo

Abertura: 

25 de Agosto, sábado, das 12h às 17h

Período expositivo: 

de 27 de Agosto até 20 de Outubro de 2018


Curadoria: 

Bernardo José de Souza


Horário de funcionamento: 

segunda a sexta-feira, das 10h30 às 19h / sábado, das 11h às 16h

A folha folheada pelo tempo

 

Entre o nascer e o morrer, experimentamos as muitas, tantas quanto possíveis, variações de tempo a compassar nossas passagens, cujas durações se estendem ou encurtam mediante os níveis de afeto e de angústia, de atenção, de inteligência ou mesmo de curiosidade. 


Há um tempo que sobrevive ao curso de todas as nossas vidas, e há tempos que se apagam de nossas lembranças ou mesmo da própria História. Entre o passado, já apagado, e o presente, nem sempre sentido, esconde-se um tempo que está permanentemente a repetir-se, que é particular, pois superior a todas as formas de vida, sem fazer distinção: um tempo que ora parece morto, ora torna-se a razão maior de nossa insistência em respirar, em aprender tão-somente para voltar a errar e, logo, tornar a reaprender, num ciclo maior que os anos, que os séculos, que os milênios...


Esta mostra nasce justamente da atenção dada a um tempo que não é o meu, mas que comigo foi compartido pela artista em seu atelier cor-de-pele, envolto numa atmosfera de conforto, longínqua intimidade, languidez e permanência. Foi naquela tarde - nem tão breve, nem tão longa, mas longa o suficiente para arrastar-se até o presente -, que nasceu esse projeto de imersão conjunta num mundo que, uma vez público, torna-se outra vez privado. É nesse tempo/ciclo que situa-se a obra de Maria Laet - um tempo que é sentido, compartilhado, que promove um eterno retorno à própria artista, mas não sem antes passar pela natureza, pelos homens, por 'todxs' nós. 


Tal qual a aventura humana, a arte também pode ser vista como um grande jogo; e foi assim, nessa toada, que procedemos, a artista e eu, ao passatempo de unir os pontos, alinhavar as partes para alcançar um labirinto maior, uma cosmogonia de elementos visíveis, audíveis, táteis, sensoriais. 

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Acaso não conhecesse Maria, era bem possível acreditar tratar-se de uma artista oriental - japonesa, quem sabe -, que responde a uma ancestralidade e a um tempo que não parecem ser os mesmos nossos. Há algo de intangível em sua ação silenciosa, fantasmática, litúrgica, eu diria - uma presença e um protagonismo que nos transpõem a outro plano, senão austero, milenar, esotérico, místico.


Recantos, dobras e dobraduras, alinhavos, brancos, cinzas e negros, sopros, metais, papéis e mais geometrias, curvas e retas, pó, areia, agulha, pedra, pele e linha, num ritual que é pagão porque deriva de todos os altares, do ocidente ao oriente, da artesania à mata, e desta à matemática. É naquilo que respira, dorme, hiberna - para depois projetar-se na matéria - que existe a obra de Maria Laet. 

Portanto entre e deixe-se acalentar, aproxime-se, ouça, respire, murmure, durma com esse barulho - da mata, da tuba, da folha a ser folheada, da natureza a ser penetrada, do tempo a ser esquecido e relembrado, pois uma folha em branco jamais será igual à outra quando estiverem soltas ao vento.


Bernardo José de Souza

Curador


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Release para imprensa:


Suave, silenciosa e pendular. Sem origem ou destino, como um corpo que existe por si só, a obra de Maria Laet reverbera o essencialismo da matéria. De forma quase que instintiva, a artista se atém aos detalhes que passam despercebidos por olhares apressados e constrói intervenções poéticas, nas quais reflete o tempo e questiona, sutilmente, limites. Esta é a linha que conduz a exposição Poro, na Galeria Marília Razuk.

 

Com curadoria de Bernardo José de Souza, a exposição reúne 11 trabalhos desenvolvidos em suportes diversos: vídeos, fotografias, monotipias, objetos e uma instalação. Com eles, a artista - também convidada para a 33ª Bienal de São Paulo - propõe ao espectador uma pausa no tempo para se despir da necessidade habitual e, muitas vezes, cartesiana, pelo controle.

 

Maria Laet age sem pressa, seu tempo é outro, atravessa o homem e a natureza de maneira tão fluida quanto uma névoa. A partir da dialética sobre o tempo, em uma ação quase que banal, Laet costura o solo da terra do Parque Lage. Trata-se da série de fotografias Terra (Parque Lage), de 2015, no qual ela se debruça sobre o chão e o alinhava, calmamente, criando uma espécie de veia entre duas árvores.

 

“A obra de Maria Laet situa-se em um tempo que é compartilhado e promove um eterno retorno à própria artista, mas não sem antes passar pela natureza, pelos homens, por todxs nós”, diz o curador.

 

O trabalho de Laet tem, por vezes, características acidentais, de imprevisibilidade. Os elementos nem sempre são controláveis, como em Sopro, série de 2008. Duas pessoas, uma de cada lado, se encontram frente a uma pilha de folhas de papel, sobre os quais cai uma gota de tinta e elas se revezam para soprar. O pigmento é absorvido pelas camadas de papel e o gesto forma diversos desenhos que, pouco a pouco, vão sumindo. O ato alude ao caráter fugaz do tempo, como se a duração do desenho pudesse ser a mesma daquele encontro.

 

Em uma sala escura, encontra-se a instalação Propagação (2014). Seu chão é tomado por centenas de bolas de metal cromado, semelhantes às usadas pela medicina tradicional chinesa. No interior de cada uma delas, um pequeno guizo. O espectador é então convidado a caminhar pela sala, adentrando-se em uma atmosfera onde o tempo é outro. O espaço é marcado ao ritmo do movimento: a cada passo, um suave tilintar.

 

Na obra de Maria existem apenas o branco, o preto e todas as variações possíveis do cinza. A artista abdicou da cor. Em dado momento, o caráter acidente ressurge na realização de monotipias de Dobra, série de 2015.  A imprevisibilidade do desenho se dá como reação ao processo criativo da artista.

 

“Há algo de intangível em sua ação silenciosa, fantasmática, litúrgica, eu diria - uma presença e um protagonismo que nos transpõem a outro plano, senão austero, milenar, esotérico, místico. É naquilo que respira, dorme, hiberna -  para depois projetar-se na matéria - que existe a obra de Maria Laet”, conclui José de Souza.

 

Sobre a artista


Maria Laet nasceu em 1982 no Rio de Janeiro, vive e trabalha em sua cidade natal.  Seu trabalho é criado por ações e pelo resultado de gestos e intervenções sutis, numa prática que envolve desenho, gravura, fotografia e vídeo. Esses meios agem como canais, plataformas para os processos da artista, como peles, que levam suas intenções e revelam a ação como um arquivo. Dessa forma, as obras acontecem tanto no conceito quanto na esfera física dos materiais envolvidos, chamando sua atenção para a membrana, o espaço que liga e ao mesmo tempo divide. Esses encontros são enfatizados na natureza entrópica do trabalho de Laet, que tendem a parecer calmos, inicialmente homogêneos, mas sutilmente questionam a noção de limite.

 

É formada pela Camberwell College of Art, na qual concluiu mestrado em 2008. Participou de residências artísticas como a Schloß Balmoral (Bad Ems, Alemanha, 2009), o Carpe Diem Arte e Pesquisa (Lisboa, 2010), e a Residency Unlimited (Nova York, 2014). 

 

Participou de coletivas como Indelével (Clube Jacarandá, Rio de Janeiro, 2016), Tangentes (Museu de Belas Artes, Gent, Bélgica, 2015), Encruzilhada (Parque Lage, Rio de Janeiro, 2015), Rumors of the Meteore (Frac Lorraine, Metz, França, 2014); Everydayness (Wyspa Institute of Art, Gdansk, Polônia, 2014), A Invenção da Praia (Paço das Artes, São Paulo, 2014), Correspondências (Centro Cultural dos Correios, 2013), From the margin to the edge (Somerset House, Londres, 2012), 18th Biennale of Sydney: all our relations (2012), Convite à Viagem (Rumos Itaú Cultural, 2012) e O lugar da linha (Museu de Arte Contemporânea, Niterói e Paço das Artes, São Paulo, 2010).  Foi indicada ao Prêmio PIPA 2010, 2011, 2012, 2016, 2017 e 2018.

 

Sua obra integracoleções como MAM, Gilberto Chateaubriand, Rio de Janeiro; MAC Niterói; FRAC Lorraine, Metz, França; MSK, Museu de Belas Artes, Gent, Bélgica; AGI Verona, Itália; Cisneros, Patricia Phelps de Cisneros, Nova York; e MoMA, Nova York.

 

Créditos Exposição:

 

Fotografia da série “Terra (Parque Lage)”: Manuel Aguas

 

Impressão das monotipias da série “Dobra”, e das gravuras “Sopro” e “Sobre a pele de uma lima da pérsia”: João Sánchez, Estúdio Baren 


Impressão das fotos digitais: Thiago Barros

 

Costura dos livros “Daquilo que não se vê”: Maria Cristina Laet

 

Fotografia do vídeo “Pneuma”: Pedro Loreto

 

Músico do vídeo “Pneuma”: Tim Malik

 

Fotografia do vídeo “Poente”: Catarina Botelho


Sapatos “Propagação”: Design Fernanda Huffel Produção e apoio artmello.com


Impressão das fotos da série “Neblina”e “Terra (Parque Lage)”: Thiago Barros