Claudio Cretti

Coisa Livre De Coisa

POR FERNANDA LOPES

2011

Coisa livre de coisa

Existe algo mais vago do que a palavra “coisa”? Existe algum termo mais usado no dia-a-dia do que esse? Buscar seu significado no dicionário é quase como não chegar à conclusão alguma. As mais de 20 tentativas do Dicionário Houaiss em defini-lo servem para confirmar aquilo que o uso comum sabe muito bem: essa é uma palavra que cabe em qualquer frase porque nela não cabe apenas um significado. Coisa é tudo quanto existe ou possa existir, de natureza corpórea ou incorpórea. É, ao mesmo tempo, o que não se sabe, como um mistério ou enigma, ou algo que não se quer ou não se pode nomear. “Coisa” é como uma palavra-espelho, que reflete os significados das outras palavras que estão no mundo. Então, seria possível um corpo que não conhecemos, que vemos pela primeira vez, ser reconhecido não como reflexo da existência de algo que já está no mundo e sim como uma existência em si? Como uma coisa livre da ideia de coisa?

Coisa livre da coisa é a série de esculturas inéditas que Cláudio Cretti, cujo nome foi retirado do poema “Origem”, que abre o livro Lição de Coisas, de 1962, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Até então, suas esculturas traziam formas mais maleáveis, orgânicas, cujos encaixes se davam de maneira mais “natural” – como se elas fossem feitas para estarem juntas. Já Coisa livre da coisa - resultado de uma pesquisa que já começa a aparecer em 2007, em peças de onde cilindros parecem sair de pedras quase brutas – são trabalhos que afirmam a escultura como um ato, uma construção. Parece não haver aqui espaço para a naturalidade. Depois de trabalhadas, peças de granito preto e branco chegam à forma de cilindros, que começam a ser tratados como unidades articuláveis pelo artista. Esses tarugos são postos juntos e juntos permanecem quase que à força. Seus encaixes são possíveis a partir do uso de peças para encaixe de tubulação, feitas em borracha e em aço inoxidável.

Angulosas, essas peças adotam um raciocínio antropomórfico. O corpo, que já se insinuava na produção de Cláudio Cretti, agora aparece de maneira mais definitiva nessas esculturas, não só na maneira como são construídas (aí, no caso, o corpo do artista), mas também em como elas se comportam no espaço. Elas são como corpos independentes, seres que se espalham horizontal e verticalmente. Algo que ainda não sabemos o nome, mas que a presença já se fez. Livres da incerteza de existência. Livres de figurações ou figurativismos, essas peças existem em si. Ao mesmo tempo, essas peças também estabelecem uma outra relação com a arquitetura, com o espaço a sua volta, outro interesse da produção de Cláudio Cretti. Vindas do desenho, as linhas dessas esculturas ocupam o espaço, tomando para si os espaços considerados vazios. O que está entre uma linha e outra. Linhas que parecem conter a vontade de se prolongar pelo espaço, tornando tudo o que as cerca como parte do trabalho. São como quase-abrigos.

As duas séries de desenho que completam a exposição também parecem lidar com as mesmas questões. Os menores, feitos com tinta a óleo preta, trazem um elemento novo: o grafite em pó. As linhas traçadas no papel pergaminho chegam a lembrar espaços arquitetônicos onde o pó de grafite indica algo como um vestígio. Vestígio não só do processo de construção do próprio desenho, mas também de algo quase fantasioso. É como alguém ou alguma coisa que não sabemos o que é tivesse passado por ali e deixado uma marca. Já nos desenhos de grandes dimensões, as massas negras produzidas com o bastão de óleo bruto, sem a mediação do pincel, constroem lugares que oscilam entre a paisagem e a arquitetura. Aqui, o corpo que parece presente é o do espectador, envolvido pela escala do trabalho.

 

Fernanda Lopes

São Paulo, junho, 2011