Claudio Cretti

O Sentido Oposto

POR JOSÉ BENTO FERREIRA

2009

É comum vermos obras de arte sem títulos. Muitas delas se identificam com sua descrição material. O modo como são feitas equivale ao próprio significado e os dois campos das etiquetas de exposições, título e técnica, encontram-se em igualdade de condições. Outras, porém, destacam-se no interior desse conjunto, que podemos chamar de “obras de arte moderna”. São trabalhos que também apresentam uma identidade entre técnica e significado, mas cuja mera descrição material é problemática.

Esculturas e desenhos de Claudio Cretti, ou as esculturas que se desenham no espaço e os desenhos que constroem espaços, são trabalhos dessa ordem. Dois espectadores podem discordar sobre pormenores da mesma escultura. Não se distinguiria um desenho específico a partir da descrição verbal. Acredito que isto não se deva a uma suposta incapacidade das palavras para circunscrever a plasticidade. Deve-se, a meu ver, a uma incapacidade dos espectadores de pensar de maneira uniforme, uma vez que a divergência das descrições é na realidade uma pluralidade de interpretações.

Muitos se detêm nesse ponto, como se a equivocidade do olhar fosse uma espécie de cegueira e o conflito das interpretações, uma forma de irracionalidade. Mas a comunidade da arte moderna e contemporânea com a reflexão filosófica está no caráter reflexivo da diferença. A arte de Claudio Cretti questiona o entendimento ao afirmar que toda descrição é interpretativa. Com isso, explicita uma problematização conceitual, materializa o pensamento.

Não se pode ver esses trabalhos sem se dar conta de que a própria visão é uma construção. Emprego a palavra sem a pretensão de universalidade que lhe impõem tanto a estética construtivista quanto a filosofia da consciência. Pelo contrário, Claudio Cretti está um passo aquém dessa assertividade, mantém-se no limite de uma experiência subjetiva e reflexiva. Certa vez o pintor Paulo Pasta afirmou sobre sua identidade com a pintura que “um passo para trás é um passo à frente”. Claudio Cretti assume uma posição muito parecida. Por isso, ali onde se veria concessão aos prejuízos clássicos remanescentes no modernismo, eu vejo inquietude intelectual, que talvez seja o melhor que a arte contemporânea pode oferecer.

Portanto, a arte já não tem a ver com os sentidos, mas com o pensamento. É claro que vemos com os olhos e o trabalho de Claudio Cretti tem forte apelo sensorial. Mas o atributo constitutivo do trabalho não é o puro “ver”, mas, como afirma o filósofo Richard Wollheim em A pintura como arte, o “ver em”, isto é, a capacidade intelectual (aparentemente uma exclusividade humana) de enxergar imagens sobre uma superfície demarcada. Sabe-se que a percepção não opera por meio da apreensão mecânica de imagens do mundo, mas por uma contraposição entre figura e fundo. Essa teoria da percepção foi explicada pelos psicólogos “gestaltistas”. Não vemos com clareza o traço branco sobre um fundo branco. Precisamos da escuridão para ver a claridade. Como disse Goethe, “onde há mais luz, as sombras são mais fortes”.

Não vemos uma pintura sem o enquadramento que a determina como imagem e não vemos o mundo sem uma idéia de realidade formulada abstratamente. Quando tomamos consciência desse enquadramento, a imagem se desfaz? Quando refletimos sobre a natureza da realidade, é preciso suspender o juízo sobre o mundo ou sobre o que é real? Essas questões de filosofia e arte são ilustradas por Claudio Cretti através da pulsação entre desenho e escultura.

Acreditamos ver um corpo sólido de granito rugoso, mas ele se projeta no ar como um traço, com polimento inconsútil. Massas negras produzidas com o bastão de óleo bruto, sem a mediação do pincel, embebem e por vezes chegam a lavrar o frágil papel japonês com sua consistência viscosa, desvendam uma materialidade que torna difícil pensar no desenho como forma plana. Cada trabalho, seja em desenho ou escultura, mármore ou granito, confronta o olhar ingênuo da primeira impressão com um desvio no sentido oposto. A síntese dessa poética inquieta está nos trabalhos que usam fitas ásperas para alternar desenho e escultura. O desenho sugere sinais arquetípicos ou formas arquitetônicas, literalmente desconstruídos ao avançar sobre o mundo ao redor e tomar corpo. Um desses trabalhos põe lado a lado um traço sinuoso, que aparenta as hesitações e o vigor do desenho manual, e uma peça vertical de granito polido.

Seria essa uma poética do paradoxo? É possível. Mas prefiro ver esses trabalhos como uma forma de ilustrar o processo da consciência descrito pela teoria da Gestalt. É por causa do desenho que vemos a escultura como um desenho no ar. É por causa da escultura que vemos a consistência material do desenho. Todo sentido que se exprime precisa de um contrário que o torne visível. A identidade precisa de alteridade, a arte precisa do mundo, ou não teremos consciência dela.

José Bento Ferreira

Contribuíram para a produção desse texto os debates sobre Claudio Cretti promovidos no Éden – Espaço de Experimentação, assim como as aulas em que sua obra foi discutida.