Lucia Mindlin Loeb

Memória Fotográfica: Um Lugar-livro Ao Leitor Em Deslocamento

Galciani Neves

Maio 2014


Memória fotográfica:

um lugar-livro ao leitor em deslocamento


A arte como uma possível ideia de mundo é um projeto para o olho, para o corpo; uma espécie de ver/estar/viver um todo complexo em que se constroem narrativas, em que se criam memórias, em que um lugar se pronuncia e é redesenhado como imagem (e como mundo novamente). Memória Fotográfica é desses lugares, onde se ancoram visualidades instáveis e onde é possível derreter-se, unindo-se a suas sombras, volumes, frestas. E escapar, partir para outros mundos, até o fim dos outros mundos, avançando a vista e levando fragmentos de tempos, minúsculas porções de mapa e cartografias de folhas e brechas de luz – esvaídas, amorfas, infiltradas.


Lucia Loeb propõe um fazer imagem em Memória Fotográfica e coloca a difícil cisão: olhar, formular paisagens e talvez não registrá-las. Como dispositivo, apresenta, contraditoriamente, livros-câmeras, cujas páginas inertes estão à espera de um olhar. Entretanto, o mesmo nem sempre é o mesmo e a tarefa desse lugar-livro é imprimir acasos e trilhas arquiteturais a seu leitor-andarilho.


Há uma tensão desses acasos como uma tensão também na confecção de uma imagem que não se estabiliza. Parece ser um dissenso, ou seja, a discordância ou a contrariedade da imagem como pensamento, feitura e registro para posteridade. A imagem parece não realizar-se necessariamente, atua, então, nesses jogos rítmicos do acaso, na ausência de registro e nos gestos do leitor-inventor. Assim, uma narrativa visual dá-se irrestritamente no mover-se, revolver-se e construir imagens e experienciar seus estatutos. Estatutos estes não-verbais e infindáveis que fazem meditar sobre sua própria manufatura.


A artista transforma a imagem em uma condição não-tátil, em movimentos e relações entre leitor e livro-câmera, à maneira de Mallarmé: o livro sem acaso é um livro sem autor. Aqui, neste livro-lugar, somos todos autores de suas imagens enquanto também estamos todos ressentidos de sua ausência técnica e material. Lidamos com esta experiência, tal como com a leitura e com o espaço por ela intuído, “cujos vestígios seria impossível rastrear em qualquer mapa ou qualquer céu, muito simplesmente porque não pertencem a espaço algum”. Pois relações como essa, nos diz Foucault (1966), nascem “na cabeça dos homens, ou, na verdade, no interstício de suas palavras, na espessura de suas narrativas, ou ainda, no lugar sem lugar de seus sonhos”. Não que este não exista em si, não que o seu estado não seja passível de afirmação. Mas há um livro por vir. Uma imagem (entre tantas ainda) permanentemente por vir.


Galciani Neves 

(Galciani Neves, maio/2014)