Maria Andrade

MARIA ANDRADE NO CERRADO

por Tiago Mesquita

 

As paisagens de Maria Andrade são tão secas quanto as tábuas sobre a quais ela pinta. A artista cria vistas horizontais, áridas, amplas, feitas com pinceladas retorcidas, fortes contrastes de cor e luz ofuscante. O sol por vezes é tão intenso que não se vê sombra nem vento, apenas o ar parado, cintilando de calor. 


Como a primeira camada de tinta é lisa, expõe os veios da madeira, como os raios de sol que tingem a atmosfera ao bater no chão desidratado. A aparência é de um lugar vazio, por onde ninguém passa, ocupado esparsamente por uma vegetação rala, que já fez parte de um meio ambiente e agora sobrevive apenas de maneira residual.


Essas paisagens são imaginárias. Os descampados inventados por Maria Andrade lembram vagamente a vegetação rasteira encontrada nos campos do município de Morro da Garça, em Minas Gerais. No entanto, não pretendem semelhança com o mundo real, nem naturalismo no estilo. Talvez por isso funcionem tão bem como alegoria de um pedaço de terra esquecido.

Essa aparência está nos galhos secos coloridos, berrantes, que brotam nas pinturas sobre um gramado assimétrico. Eles são pincelados com gestos rápidos e irregulares. As cores das figuras contrastam muito com o fundo. A passagem do espaço para a figura não é uniforme. Assim, as plantas parecem isoladas, como se não fizessem parte daquele terreno. São aquilo que resta em meio àquele lugar nenhum.


A pintura para Maria Andrade é feita desses lampejos, talvez uma promessa tênue, em meio ao sol forte do sertão, de que logo mais virá chuva.