Maria Andrade

ÚTIL PAISAGEM?

por Rodrigo Naves

 

As paisagens de Maria Andrade não supõem dias ensolarados. A luz representada nas telas fala de dias nublados, bons para se trabalhar no campo. As quatro ou cinco palmeiras do primeiro plano ganham realce para não serem confundidas com os arbustos e o mato vizinho.


Elas são cercadas por uma vegetação quase cerrada, e o verde escuro dominante não remete a um solo degradado nem à falta de água. As palmeiras sobressaem por uma verticalidade paradoxal: os troncos são finos para o verdor e a força da folhagem e seus coquinhos. Sobretudo os troncos não têm contorno, nem o claro-escuro que sugere a impressão de um volume roliço, e a irregularidade das pinceladas acentua o pouco diâmetro.


A tela mais clara que abre para o último plano revela uma vegetação mais rala. À esquerda há um capão de mata mais fechada, com a intenção de chamar a atenção de uma picada erodida pela água que ganha velocidade pelo declive. Paradoxalmente a excelente qualidade da pintura de Maria Andrade equilibra o estrago feito na terra com a riqueza dos verdes sutis, que tendem ao azul claro nas montanhas.


A representação do sol foi pintada inúmeras vezes. Foi metáfora do fim de uma era, do início de um novo mundo ou do trabalho árduo, realizado a sol a pino. Na pintura de Maria o sol está ausente. Essa característica dá a sua arte uma ambiguidade repleta de alternativas de observação. Folhas, caules e frágeis raízes, por não terem apoio, adquirem uma feição decorativa e alegre.


Nas telas convivem desolação e frescor relativos. Acredito que está aí a sensibilidade da pintora. E penso que reside nela a atualização nesse gênero – a paisagem – que vem durando muitos séculos, que passou por grandes pintores e acadêmicos, chegando aos nossos dias um tanto malvista. A intuição de Maria vislumbrou nesses dois tempos de apogeu e decadência da paisagem, ao mesmo que conseguiu dar a ela um estatuto digno e vital. Não seria esse o estatuto da paisagem atualmente?


A artista tem grande interesse por vários de tipos de tapetes. Por muitos séculos essas tramas muitas vezes derivaram da estilização de galhos, flores ou trepadeiras, ou mesmo em ruas do interior, durante a procissão de Corpus Christi. Basta reparar nas pinturas e nos papéis cortados de Matisse – um grande admirador da arte do Oriente – para nos darmos conta da possibilidade de incorporar na pintura de paisagem uma dubiedade que confere grande contemporaneidade.


Por vezes tem-se a impressão de que as antigas padronagens de tapetes, colchas, ladrilhos e tantos outros ritmos que separam dos objetos banais – e fazendo atrair os olhos – renascem nas cores planas e complexas de Maria Andrade, sem nos fazer esquecer os riscos que a técnica dominante oferece à vida de nossos dias.


Rodrigo Naves, 2022