Mariana Serri

Como a pintura, é a poesia

Texto escrito para a exposição Áporo. 

Exposição individual realizada na Galeria Marilia Razuk, em São Paulo. De 16 de maio a 15 de junho de 2013.


Cauê Alves


Ao longo da história o verso de Horácio (c. 20 a. C) ut pictura poesis, traduzido no titulo desse texto, foi citado inúmeras vezes sempre que a pintura e a poesia são comparadas. A relação entre elas é antiga e em geral está associada à função mimética, mesmo que cada uma imite a natureza a partir de matérias distintas, a tinta ou a palavra. Apesar da unidade das artes e de princípios comuns, pintura e poesia buscaram ora delimitar ora borrar seus próprios campos com outras áreas. Depois de muitos anos em que a pintura esteve rebaixada por não estar entre as artes liberais, noRenascimento Leonardo da Vinci chegou dizer que a pintura era superior porque era mais universal, uma vez que a visão não necessita de intérpretes.


Para além das disputas, do debate histórico-filosófico sobre as diferenças e semelhanças entre a cor e a linguagem, Mariana Serri tem feito uma pintura em sintonia com a poesia, mas não apenas no sentido mimético. Essa relação com a literatura já estava presente em 2010, em sua última exposição individual em SãoPaulo, na Galeria Virgílio. Em 2012, ela publicou pinturas que fez em diálogo com os poemas de Ângela Castelo Branco para o livro Epidermias, em que palavra e imagem se completam.


A mostra Áporo surge do contato com o poema homônimo de Carlos Drummond deAndrade. Mas não se trata aqui de ilustração, a pintura de Mariana Serri não pretende ser a tradução visual da poesia de Drummond, uma vez que ela também é “poesia muda”, tal como na famosa frase de Plutarco que diz ainda que “poesia é pintura falada”. Ambos, poema e exposição, partem de uma dificuldade, de uma impossibilidade concreta, de uma contradição que impede a continuidade da ação ou do pensamento. Na primeira estrofe do poema isso fica claro: “um inseto cava/ cava sem alarme/ perfurando a terra/ sem achar escape”.


Mas os dilemas da pintura de Mariana Serri não são exatamente os mesmos do poema, embora ambos busquem uma saída e procurem um estado de liberdade a partir de uma linguagem concisa e sintética. As interpretações consagradas de Drummond indicam, a partir do verso seguinte do poema, a relação direta com um “país bloqueado” da época da ditadura de Vargas. “Que fazer, exausto,/ em país bloqueado,/ enlace de noite/ raiz e minério?”. As pinturas de Áporo não possuem um discurso tão próximo do realismo social presente no livro A Rosa do Povo, suas conexões com a realidade são sutis.


Talvez essa relação com a paralisia, como esse bloqueio que impede as coisas de acontecerem, seja mais eloquente na atmosfera parada de suas telas. Tudo está sempre estacionado, imóvel, mesmo quando sua pintura aborda as máquinas, temática recorrente na obra da artista. Nesse sentido, as máquinas estáticas, projetos hidráulicos modificados, interrompidos, até poderiam remotamente ser uma alusão à paralisia da indústria nacional. Entretanto, os problemas com que a pintura de Mariana Serri se depara antes de tudo são cromáticos. Inclusive as máquinas são quase pretextos para o uso de distintas cores. Como em camadas geológicas, cada plano de cor vai se formando devagar, sempre em diálogo com o seu entorno.


Como conciliar tons contrastantes numa mesma paisagem? Como tornar as passagens entre cores tão diferentes mais amenas? Essas são algumas das aporias de suas pinturas. Embora Mariana Serri tenha uma palheta ampla e use cores dissonantes, suas telas possuem em geral um clima tranquilo, apesar de uma ou outra mais gritante. Por mais contraditório que pareça, os tons vibrantes tendem a se apaziguar, como se buscassem uma harmonia anterior que os une, uma ligação primordial e originária de todas as cores.


Já os desenhos de orquídeas sobre projetos de circuitos hidráulicos, fluxogramas e planos de máquinas surgem de uma oposição fundamental: a razão, a geometria, a dureza da linha do desenho técnico versus a sensualidade, a forma orgânica da flor, a ênfase na cor. Aos poucos, também nas pinturas sobre tela, a relação entre figura efundo se torna mais fluida, como se o fundo quisesse se tornar figura e vice-versa. A artista faz intervenções gráficas nos desenhos técnicos em AutoCAD ou feitos à mão,ao fundo, mesclando o primeiro com o último plano.


Como no poema Áporo, o desenho de Mariana Serri traz uma imagem feliz, uma saída do labirinto, um futuro melhor, mesmo que frágil como uma flor. Do subterrâneo sem saída, da terra sem escape, brota uma orquídea improvável que rompe com os postulados da geometria tradicional. Inclusive a palavra “áporo” também possui dois sentidos na biologia, é uma flor esverdeada da família das orquídeas e ainda uma espécie de inseto que cava a terra. O poema de Drummond termina com o verso: “em verde, sozinha,/ antieuclidiana,/ uma orquídea forma-se”.


A proximidade que essas pinturas têm com a poesia, como a de Drummond, não é apenas de ordem temática. Não é o que a artista pinta que carrega um sentido poético, mas como ela articula os planos, as relações entre as cores, enfim, os modos como a forma e o conteúdo estão entrelaçados intimamente. A pintura de Mariana Serri se aproxima do gráfico, com contornos precisamente definidos, e se mantém como uma pintura assertiva, apesar das perguntas que ela traz dentro de si. Tudo se passa como se cada pintura fosse ela mesma um áporo, ou seja, um problema, uma dificuldade, mas também um desabrochar natural de cores no limite da expressão de suas qualidades.


ÁPORO

Um inseto cava

cava sem alarme

perfurando a terra

sem achar escape.

Que fazer, exausto,

em país bloqueado,

enlace de noite

raiz e minério?

Eis que o labirinto

(oh razão, mistério)

presto se desata:

em verde, sozinha,

antieuclidiana,

uma orquídea forma-se.


Carlos Drummond de Andrade In: A Rosa do Povo (1945).


Áporo: (do grego a+poros, sem passagem, sem saída) 

1. problema insolúvel; situação sem saída; 

2. uma espécie de inseto que cava a terra; 

e 3. uma orquídea verde. Dicionário Caldas Aulete.