Raquel Garbelotti

Entrevista Raquel Garbelortti, Por Cauê Alves

2011

ENTREVISTA: RAQUEL GARBELOTTI

Juntamentz é fruto de uma pesquisa acadêmica e de um trabalho etnográfico aberto realizado por Raquel Garbelotti e alguns estudantes. É uma espécie de mapeamento poético da presença da comunidade pomerana no estado brasileiro do Espírito Santo. Parte da pesquisa integra o componente ZAP, Zonas de Autonomia Poética, apresentado no Cais, em Porto Alegre. Se a Pomerânia é um país que politicamente não existe, seu antigo território pertence atualmente à Alemanha e Polônia, os membros dessa comunidade são prova de que uma nação pode resistir mesmo sem deter plena autonomia política sobre uma área, como nos diz a artista na entrevista feito por e-mail.

Texto por Cauê Alves

Cauê Alves: A partir do vídeo “Silent Film: in search of a pomeran house”, que integra o projeto Juntamentz, em que sentido podemos dizer que a nação pomerana que vive hoje no Espírito Santo é uma ficção?

Raquel Garbelotti: A comunidade pomerana no Espírito Santo não e uma ficção, está lá. A ficção está nos filmes ou excertos que realizei, na idéia de mapeamento insólito, de algo que não se conclui ou que pouco importa como conclusão da identidade de um grupo. A ficção está na idéia de que qualquer filme, por mais que tenda ao documentário, sempre carregará sua própria ficção.

CA: Em sua pesquisa você cita Hal Foster e Miwon Kwon, que questionam a possibilidade de artistas realizarem projetos etnográficos. Como você responde à oposição entre a autoridade científica do etnógrafo e o artista como autor/ inventor?

RG: Juntamentz significa em pomerano mutirão, ou trabalho em grupo. Quando elaborei este projeto; inicialmente como pesquisa científica na UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), encontrei duas colaboradoras – Irleci Klietzke e Carla Siebert; que são pomeranas residentes no ES e alunas do curso de artes da universidade. Construí esta pesquisa sob sua perspectiva negativa – sob a ótica destes autores (Kwon e Foster). Li o que havia sido feito sobre community based art no contexto Norte Americano, neste texto de Kwon. O texto de Foster, também me ajudou a pensar nesta minha inserção na comunidade de forma menos ingênua. Reduzi minha idéia de comunidade, à Irleci e Carla e passei a trabalhar com estas estudantes no projeto, como sendo este meu contato menos superficial com a comunidade pomerana. Corri o risco de reduzí-las ao que interessava à pesquisa, mas não foi o que de fato aconteceu, pois creio sinceramente que construímos questões comuns. De qualquer forma, elas estavam como estudantes de arte – interessadas em entender o que eram práticas site-specific. Eu me interessava em me aproximar do contexto cultural delas. Acredito que houve troca, mas em escala diferente da que se espera de projetos como este. Talvez o que diferencie este meu projeto de outros sobre comunidade, seja sobretudo a noção de escala.

No caso destes dois autores que utilizei para pensar o projeto; podemos dizer grosso modo, que a conclusão de Kwon sobre estas práticas, é de que os artistas devem ter iniciativas mais projetivas e Foster, sugere a reflexividade vigilante. Nos dois casos, no entanto, entendo que existe a idéia de que estas práticas colaborativas precisam ser abordadas sob o ponto de vista menos paternalista e tolo – daquele que a priori crê que a Arte se integre à comunidade ou que nela introduza algo melhor.

Procurei trabalhar de forma mais estrutural, no campo da linguagem e do vídeo, assim como do texto, produzindo ou reproduzindo a idéia de reflexividade, próxima daquela que o cinema pensou: como algo que tornaria o filme mais opaco, algo que pudesse produzir uma condição não dada pela imagem, mas na relação da imagem com a projeção da mesma pela condição espectatorial. Neste sentido, este projeto como resultado questiona também a ideia de representação bem sucedida. Estes mesmos resultados são excertos – nem documentário e nem ficção, possuem uma forma mais ensaística.

CA: A partir de sua pesquisa sobre a Pomerânia, em que sentido poderíamos dizer que uma nação necessita de um território autônomo para existir?

RG: Os pomeranos são a prova viva de que a idéia de comunidade, lugar e nação não dependem de território no sentido de uma pátria original. Foi o caso dos judeus também, antes do Estado de Israel. No Espírito Santo, quando visitei as comunidades, percebi que a língua era o forte elemento agregador. As crianças pomeranas só aprendem o português quando vão para a escola. Em casa, fala-se só o pomerano. O mais surpreendente, é que são uma comunidade agrícola, e portanto, trabalham a terra sob a perspectiva mais direta que se possa pensar.

CA: A língua pomerana parece ser o traço mais marcante da sua cultura, ao contrário de sua arquitetura que parece ter se fundido com a local. Em que sentido é a língua que define essa nação? É ela que permite que os cidadãos pomeranos se identifiquem como tal ou há mais algum outro fator assim tão forte?

RG: Não posso afirmar que a cultura deles tenha se fundido totalmente com a do local. Embora eu muitas vezes tenha pensado nisso, não pude chegar a tal conclusão. Embora as casas que fotografei para o Silent Film, tenham as características das casas de roça brasileira, Irleci e Carla me afirmaram que são pomeranas e a verdade de uma identidade delas é por mim inquestionável no trabalho. Este é o sentido deste projeto, não há averiguação, nem confirmação de uma verdade stricto senso. A verdade para mim está naquilo que elas acreditam e desacreditam. Para mim era o que interessava.

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