Vanderlei Lopes

Horas Seculares E Instantâneas

POR GUILHERME BUENO

2011

Mas está fraturado o teu dorso

meu estupendo e pobre século

Osip Mandel’štam, “Meu século”

 

Numa era que alega o fim da história (soa contraditório falar da existência de uma era humana fora da história), na qual a relação com o tempo se mostra difusa e vacila distinguir entre o que seria permanente e efêmero, podemos nos perguntar sobre o que falam os trabalhos de Vanderlei Lopes. Eles emulam o instante fotográfico, limiar entre a existência e a dissolução das coisas. Tempos incertos só cabem na imagem, pois nela nos damos conta do quanto o instante pode ser fantasmagórico, ao fixar aquilo que ainda existe e simultaneamente começa a passar, a inexistir. E também porque imagens são capazes, mesmo que por um ardil fugaz, de fingirem em certas ocasiões existir além ou aquém do tempo.  Assim ocorre no vídeo Afresco no qual um objeto se molda, se “esculpe” infinitamente; nas suas cerâmicas, que aliam as formas gregas – uma época longínqua, perdida, mais ainda referencial para nós –  às cenas do mundo atual, fundindo num só objeto aquela noção de temporalidade imprecisa antes mencionada. Ou ainda a experiência de fazer um “desenho de rastros”, seja em Árvore, um trabalho que se conclui na sua aniquilação de fato, restando apenas a silhueta consumida pelas chamas (o risco, em duplo sentido, desenhar ou explodir, foi vivido), seja em Enseada, cuja corporeidade frágil do giz e da folha de carbono espelha o mar volúvel e sempre mudando sua forma.

A relação trabalho / tempo / matéria trata da consecução de uma forma a partir da articulação desses termos. Juntos, eles assinalam como se dá a transformação de uma coisa em outra, o dar vida ao que seria inerte – em suma, o processo mesmo de invenção do real. No entanto, ao considerarmos as questões aqui lançadas, as obras de Vanderlei existem menos na apresentação do objeto como etapa final de uma sucessão de atos do que na cristalização do instante crítico, do ponto de inflexão, do estado intermediário no qual uma coisa era e passará a ser; em outros casos, como nos vestígios de Árvore muda-se de figura – lidamos com algo que já passou e, permitida certa liberdade retórica, existe literalmente há anos-luz de nós, tal como uma longínqua estrela consumida milênios atrás e só agora visível a nós. Seria o tempo de uma mitologia da imagem?

Voltando, porém, àquele tempo intersticial da passagem de um estado a outro, isso se mostra mais claramente em Música: o bronze solidifica seu escorrimento líquido, a ponto de sustentar a foto de onde parte. Não é um trabalho antiescultórico, mas contraescultórico, naquilo em que metaforicamente inverte o sentido da escultura como sujeição à gravidade (o líquido “informe” sustenta o seu receptáculo e não o contrário). Mais do que o transbordamento, ele prolonga e reafirma o lugar dúbio ocupado pela imagem no espaço, na medida em que a fotografia se torna tão escultórica quanto o bronze; essa manobra, no entanto, indica na mesma proporção seu confinamento na superfície da folha, permanecendo para sempre inacessível, intocável. Nisso é familiar à série grega: como nas figuras imaginadas por Keats em seu célebre poema “Ode à uma urna grega”, os personagens estão para sempre retidos na eterna iminência de... (Bold Lover, never, never canst thou kiss, Though winning near the goal). Contudo, há a recusa ao transe da melancolia. Ao contrário, opta-se pelo atrito objetivo entre eterno passado e eterno presente, a sobreposição estratégica fundadora da condição transitória e finda da imagem. Afinal, ela se fixa no paradoxo de quanto mais histórica, mais apta a simular sua trans-historicidade, isto é, sua capacidade de se infiltrar em um momento de suspensão, de quebra de um tempo narrativo organizado linear e cronologicamente. É uma narrativa moldada à base de dissensões temporais. 

Por que insistir tanto na ideia de tempo e de querer agarrá-lo nesses objetos? Talvez pelo dilema de nos serem cada vez mais caros (nas duas acepções da palavra), afora tornarem-se quase antagônicos, dado que a duração requerida para a consecução e para a experiência do objeto, senão inviável, é cada vez mais rara no ritmo do mundo atual. É um trabalho que opta, ao lidar com o espectro da fugacidade, fazer desse ambíguo congelamento impossível e titânico uma resistência em favor da poesia.  Amanhã é agora (Godard).

Guilherme Bueno