Vanderlei Lopes

Prospectar O Sensível

POR MARIO GIOIA

2013

Exercício, projeto de ocupação do artista Vanderlei Lopes na praça Victor Civita e no antigo Incinerador Pinheiros, reforça duas condições de sua obra. A primeira diz respeito à abordagem experimental da produção, gerando um conjunto de difícil determinação, mas dotado de grande fluidez e liberdade. A segunda tem a ver com o desenho como uma mola-mestra na trajetória, ultrapassando a ideia apenas do grafite sobre o papel.

É possível dizer que Lopes lança mão de estratégias mínimas no corpo dos trabalhos apresentados agora. Para demarcar sua experiência no período de ocupação do logradouro _ uma praça onde os decks de madeira sobressaem, acima de parte do solo contaminado por derivados do cloro, onde um antigo incinerador dava fim ao lixo da região _ , o artista radicado em São Paulo optou por interferências menores, de fisicalidade pouco robusta, mas que, atentamente, provocam resultados de potência inquestionável.

Nesse sentido, as obras sonoras que Lopes espalha por pontos distintos da praça, em especial abaixo do chão do deck, criam sentidos algo enigmáticos. Afinal, por que o barulho de cavalos, em diferentes circunstâncias, se espalham por essa construção algo náutica? E o crepitar incessante de um forno remete a quê, disposto no andar de cima do edifício de linhas fabris, em meio a superfícies de tijolos, concreto e blocos desgastadas, arranhadas e riscadas?

Um dado interessante é que a praça é circundada de órgãos públicos de controle _ há a companhia de tráfego e trânsito, a companhia de controle ambiental, a subprefeitura que regula a vida noturna de alguns dos mais agitados bairros de SP no que tange ao lazer e à diversão. Uma estação de metrô, sítio de desastre durante sua construção havia poucos anos, além de uma linha de trem e um terminal de ônibus de intensa circulação ajudam a configurar um espaço de singularidade no tecido urbano da metrópole.

Assim, Lopes tateia questões como as relações de poder e de submissão _ a lembrar que as cercanias sediaram algumas manifestações, as mais fortes no agora histórico Junho de 2013 _ , refletido no forte caráter construído da praça, como a assegurar um âmbito cívico, civilizacional _ lembremos das origens da ágora grega _ num lócus permeado pelo perigo: o solo contaminado demorará anos para se recompor à originária ‘pureza’.

O som dos cavalos, ríspidos e sempre longe do descanso, remete ao conceito de monumento e de sua atual condição indicial de ruína e de entropia. Para qualquer cidadão que frequente zonas centrais de grandes cidades brasileiras, perceberá que bustos pichados, em má conservação, esculturas com partes faltantes e ambientes outrora de ‘passeio’ que tornaram-se moradia de menos favorecidos são a regra. A imagem épica, hoje, é vertida para um indicador das difíceis e conflitantes relações entre os habitantes. O bronze polido se transmuta em ondas sonoras de tom incômodo e de parca sedimentação. Já o fogo, numa queima que parece eterna, também reforça a ideia de um perigo iminente, assim como a poluição química cujo odor irritante bate forte nos dias mais quentes.

Na linha vestigial, Lopes coletou e exibe em mesas simples de ateliê momentos diversos de suas experiência no local. Fotos de efeitos geométricos na água, folhas, galhos, borboletas sem vida, cascas de árvores, montes de terra, desenhos aquarelados de formas presentes no espaço, diagramas de pensamentos sobre o que passou durante o tempo de permanência, isso tudo traz um conteúdo processual muito poético sobre o lugar e o tempo.

Nesse sentido, apenas apresentar os registros do que é um tipo de  ‘relógio’ _ desenhos cujas formas vêm das diferentes incidências de luz no chão do prédio, em horários distintos e feitos com pó de tijolos descartados _ contribui ainda mais para essa dinâmica imaterial que nos atinge justamente por ser ideia. E dialoga com um conceito de desenho expandido, mais conceitual, e que se liga à série anterior de trabalhos com pólvora e de um projeto (infelizmente não realizado) de revelar os traços subterrâneos da umidade e dos lençóis freáticos criando formas e volumes num espaço ‘cubo branco’. Com essa investigação híbrida e multifacetada, Vanderlei Lopes nos faz observar o que chega muito próximo do essencial.

Mario Gioia, agosto de 2013