PELAS FRESTAS: ANA VITÓRIA MUSSI, MÁRCIA XAVIER E MARIA LAET: Curadoria Claudia Calirman e Gisela Gueiros

3 - 12 Fevereiro 2022
Apresentação

Pelas Frestas [Through the Cracks]: 

Ana Vitória Mussi, Márcia Xavier e Maria Laet

 

Abertura: 

quinta, 03 de fevereiro, 12-21h 

 

Período Expositivo

de 03 à 12 de Fevereiro de 2022

 

Horário de Visitação

Seg- sex, 11h-18h / Sáb, 11h às 16h 

Tel: +55 11 3079-0853 

Whatsapp: + 55 11 96082-3111

contato@galeriamariliarazuk.com.br

Pelas Frestas: Ana Vitória Mussi, Márcia Xavier e Maria Laet

 

“There is a crack in everything, that's how the light gets in” Leonard Cohen

 

Pelas Frestas: Ana Vitória Mussi, Márcia Xavier e Maria Laet foca em três artistas de gerações diferentes que apresentam afinidades estéticas e poéticas, ao utilizar resíduos e memória como trama condutora de suas obras. A exposição tem curadoria de Claudia Calirman e Gisela Gueiros, historiadoras da arte baseadas em Nova York, em parceria com as galerias Lume, Marilia Razuk e Casa Triângulo.

 

Na obra de Ana Vitória Mussi (1943), negativos fotográficos formam o trabalho em si. Entre 1979 e 1989, Ana Vitória trabalhou como repórter fotográfica cobrindo a noite carioca. Em Série Negativo, Pelas Frestas (1972/2012); À Tua Imagem I (1978/2004) e Índice #2 (1978), as imagens dos negativos são suprimidas, ao invés de serem reveladas. O que se vê são apenas os porta-negativos; os envelopes e o papel celofane que os protegiam. Há um desdobramento tanto do passado da artista, quanto da datada cena social do Rio de Janeiro, abandonando o que já não importa, para desvendar e criar um novo presente. Os negativos não se referem mais a nada, mas apenas a si mesmos. Os envelopes e suas respectivas numerações deixam de catalogar aquilo que não existe mais, para simplesmente envolver o vazio.

 

Se no trabalho de Mussi os porta-negativos e seus negativos deixaram de se corresponder, no fotograma Véu 3 (2007) de Márcia Xavier (1967), o véu de noiva também aparece desconectado do corpo que o vestiu. O mesmo se dá em Bolômetro (2009), onde uma foto aérea da cidade de São Paulo – tirada pelo pai da artista que era piloto – é parcialmente obliterada com recortes, em forma de um gabarito/bolômetro. Os recortes sugerem algo a ser completado, um espaço a preencher – a arte que se modifica através da percepção do espectador e a cidade que se altera com a presença de seus habitantes. A vista aérea revela elementos urbanos que são invisíveis para quem navega a cidade como pedestre. De novo, um distanciamento – apenas uma marca, um vestígio.

 

Na obra de Maria Laet (1982), as imagens vão se diluindo, se distanciando de sua forma inicial. Tanto em Dobra (2015/2018), monotipia sobre papel de algodão e papel japonês; quanto em Sopro (2013), gravura em metal sobre papel de algodão; e em Sem Título (Gaze) (2013), monotipia em papel  algodão, há um atravessamento de luz sobre o material permeável e poroso, criando uma imagem que aos poucos vai se desdobrando e evanescendo. Os gestos de dobrar ou soprar registram a costura de uma experiência vivida, revelando a passagem do tempo e sugerindo a fragilidade da memória.  Nessas transferências entre camadas de papel, nas dobras e nos sopros, a presença humana – da mão que desdobra o papel ou do fôlego que se faz escasso – são como um carimbo da vulnerabilidade da presença humana.

 

Em todas as obras há uma reflexão sobre a impossibilidade de uma preservação eterna, o desejo de registrar esquecimentos e a tênue captura do que já está se apagando. O que resta é a certeza de que aquilo que foi não pode mais ser. Vestígios de arquivo, ou arquivos de vestígios.

Claudia Calirman é professora associada de história da arte no John Jay College of Criminal Justice, Nova York. Ela é autora de Arte Brasileira sob a Ditadura Militar: Antonio Manuel, Artur Barrio e Cildo Meireles (Duke University Press, 2012/Réptil Editora, 2014).

 

Gisela Gueiros é historiadora da arte, consultora de arte e educadora baseada em Nova York desde 2007. Ela trabalhou no Museu Guggenheim e já organizou mais de 30 exposições entre Nova York e São Paulo.

Vistas